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Ciclista da vez: Letícia

Hoje vamos apresentar uma pedalante que tem 28 anos, é estudante de mestrado e mora no Cristo Rei. Com a palavra, Letícia da Costa e Silva.


indo para Morretes

indo para Morretes

Estou em Curitiba há dois anos, antes de mudar para cá tinha um carro, mas vendi na mudança. Achei que a cidade desde o início me oferecia mobilidade que não tinha em Manaus, seja a pé ou de ônibus e com o tempo fui deixando de querer comprar outro carro. Mesmo andando a pé ou de ônibus observava que a cidade tinha um número considerável de ciclistas que utilizam a magrela como veículo diariamente, mas ainda não passava pela minha cabeça em ter uma.

 

Aí, há uns 10 meses atrás conheci o Iê, amigo querido, que havia se mudado para Curitiba há uns 2 anos também e tinha deixado de andar de bicicleta. Ele começou a se movimentar para comprar a magrela, e depois de uns 3 meses que o conhecia ele apareceu lá em casa com ela. Todo orgulhoso e falando de muitas das viagens que ele havia feito já na vida de bicicleta e me deixando a par das suas pedaladas pela cidade. Comecei a ficar com vontade de ter uma também, via o Iê indo para minha casa, indo trabalhar, passear, fazendo tudo com sua bicicleta, e notei que seria muito melhor me movimentar de bicicleta pela cidade do que a pé ou de ônibus. Faria exercício, economizaria tempo, dinheiro, apreciaria as paisagens e ainda teria maior autonomia na mobilidade.

Fui até o Velo Club do Alessandro há uns 5 meses atrás para montar a bike, indicado pelo Iê que nesse meio tempo já estava agilizando a abertura de sua empresa de Cicloturismo. E foi lá com o Alessandro que comecei a conhecer melhor essa opção de transporte e ficar mais encantada com a ideia. Copiei a mesma bike que o Salin fez para a namorada dele, já que no dia que fui encomendar a bike, ele estava lá e barganhava tudooo e passava segurança sobre o que estava negociando. A partir daí, voltei várias vezes no Alessandro, sempre recebendo dicas de manutenção da bike.

O que inicialmente era planejado para ser um veículo só na cidade (tenho para-lama na magrela), transcendeu….já peguei a BR para Morretes e quero fazer mais (me arrependi de ter colocado o para-lama por causa dessa viagem, vou tirar ele). Praticando comecei a perceber a importância da bicicleta como transporte na cidade, para o meio ambiente e para a nossa saúde mental, emocional, física, espiritual….. E agora sou defensora do uso de bicicleta como ‘transporte humano’ e uso a bicicleta de 6 a 7 dias por semana.

Em relação ao que a minha família acha… Bom, meus pais moram em Manaus, eles apoiam, mas ficam preocupados com a segurança, pois pedala a noite também. Sempre os acalmo, pois podemos escolher os lugares por onde pedalar na cidade e nunca tive maiores problemas com isso. Os amigos, alguns ficam entusiasmados e outros acham ser um hábito estranho. Infelizmente ainda há pouco esclarecimento e alguns preconceitos sobre o uso da bicicleta como transporte na cidade, mas vejo que com o tempo eles vão desaparecendo.

Tenho qualidade de vida. É como se fosse uma terapia, além de economizar tempo, dinheiro. Quando fico dois dias sem andar de bicicleta já sinto falta. Parece que há um outro tipo de interação com a cidade e o ambiente, que nem a pé ou de carro você consegue aproveitar. Só pedalando mesmo. Mas acho que a cidade deveria estimular mais o uso da bicicleta pelos cidadãos oferecendo uma melhor infra-estrutura e bicicletários para estacionar (falta na cidade). Inserindo faixas para ciclistas em pistas estratégicas. É ótimo termos uma ciclovia, mas acaba que o compartilhamento atrapalha, não por não querer dividir e sim porque a velocidade de uma bicicleta e dos pedestres são diferentes.

Taí mais um motivo para as faixas nas ruas, assim não dividiríamos as faixas de automóveis com eles. O curioso é que o plano de mobilidade urbana da cidade prioriza em primeiro lugar os pedestres e ciclistas, mas não é bem isso o que vemos acontecer em sua infra-estrutura e leis. Um exemplo é o projeto de lei para os shoppings terem um bicicletário e o veto do antigo prefeito. Apesar de Curitiba oferecer melhor infra-estrutura que as outras cidades do país, para realmente priorizar os pedestres e ciclistas, a cidade precisa ainda adequar muito sua infra-estrutura viária.

Eu percebo que quanto mais ando de bike, mais jeitosa fico pedalando. Então tô praticando para melhorar cada vez mais minha pedalada, mas não obrigatoriamente, mas porque eu gosto. Talvez também se nós bicicleteiros tivéssemos mais adeptos teríamos uma infra-estrura melhor de se pedalar.

Cicloviagem? Yep, para Morretes! Bueno, tentei ir com uma amiga, mas não conseguimos finalizar. Fizemos 47 km. Pegamos a BR para SP e entramos pela estrada da Graciosa, paramos no Mirante. Afff….foi uma aventura e delícia, primeira experiência e fomos sem preparo algum, nem mapa. Então erramos caminho, nos deram direção errada, outras vezes entendemos errado. Fomos num bicicleteiro na Vila Zumbi (bairro bem amigável, por sinal e por contradição) e apreciamos lindas paisagens. A Serra do Mar é linda mesma. E que bom que tenho uma bicicleta que me permite apreciar e me envolver com estes ambientes interagindo, “experenciando”….muito diferente do que estar num carro.

Estou grávida e continuo pedalando – parte II

Na semana passada a gente publicou a primeira parte do relato da Vanessa. Aqui vai a segunda parte.


Vanessa na bici

Vanessa na bici

Em relação às mudanças do meu estilo de pedalada, eu diminuí a velocidade, cuidando muito mais com o trânsito. Alguns trajetos onde o trafego é maior, opto em andar pela calçada. A frequência e as distâncias também diminuíram, até porque fico cansada mais facilmente. Desde a semana 36, quando parei de trabalhar, parei de usar a bicicleta para esse fim. Atualmente pedalo pra ir ao supermercado, à piscina, estação de trem e passeios nas redondezas onde moramos. Quando há alguma rua com aclive e sinto que estou começando a cansar, opto em empurrar a bike morro acima até chegar de novo a uma rua plana. Quanto à postura, percebi nessas últimas semanas que tenho que ficar mais “reta” na bicicleta, mas nada muito diferente.

Não fiz nenhuma adaptação. Como minha bicicleta é um modelo feminino, ela é fácil de montar, com o quadro em “V” e com o guidão mais alto que as mountain bikes normais. Mas meu comportamento no trânsito mudou. Vou mais devagar e pedalo na calçada quando possível e quando o trafego é maior. Aqui temos o costume de usar um colete refletor e capacete quando andamos de bicicleta, principalmente nos meses mais escuros. Além disso as bicicletas são equipadas com luzes na frente e atrás.

Acredito que o uso de equipamentos adequados para ciclistas é muito importante, principalmente na gravidez. Como o uso do capacete em caso de acidentes, o uso do colete refletor para que os motoristas vejam o ciclista e o uso de luzes na bicicleta. Para as grávidas o importante é não tentar nada muito novo… Pedalar desde o começo da gravidez fez com que me acostumasse com a barriga crescendo e a “perda” do centro do corpo. Acho que não é porque eu pedalei durante a gravidez que todas deveriam fazer o mesmo. A mulher grávida deve pedalar desde que ela se sinta segura e confortável. No meu caso foi uma excelente forma de me manter ativa. Infelizmente pedalar na gravidez ainda é caracterizado por muitos medos e tabus.

Às vezes fico imaginando o que eu teria feito se tivesse passado minha gravidez em Curitiba. Acho que é diferente. A Inglaterra é reconhecida como um dos piores países da Europa para ciclistas, você sabe, poucas ciclofaixas, poucos lugares para estacionar, etc.. Por outro lado percebi que os motoristas têm muito mais respeito pelo ciclista do que no Brasil. Isso dá mais confiança quando você compartilha o transito com os carros.

No Brasil, em Curitiba, o trânsito é mais violento, logo acho que eu não me sentiria segura andando em ruas movimentadas. Espero que isso mude! Sobre pedalar na gravidez no Brasil? Acho que tudo depende das circunstâncias que você está. Existem bairros e cidades no Brasil que são tão seguras quanto na Europa, apesar da gente achar que não. Além disso, dá pra pedalar por ruas alternativas. Eu e meu marido estamos voltando pro Brasil em alguns meses, e caso eu fique grávida de novo, penso seriamente em fazer o mesmo que fiz aqui.


Obrigado por compartilhar sua história conosco Vanessa. E que o herdeiro venha cheio de saúde para encarar muitas pedaladas em família.

Estou grávida e continuo pedalando – parte I

Este é um relato da nossa amiga Vanessa que está no finalzinho da sua primeira gestação e não pára de pedalar !!


Vanessa na bici

Vanessa na bici

Comecei a pedalar quando ganhei minha primeira bicicleta aos 6 anos de idade. Desde então sempre tive bicicleta. Em 2002, quando já estava morando em Curitiba e casada, eu e meu marido fizemos uma viagem de bike até Florianópolis. Acho que foi a partir dessa viagem que nos apaixonamos mesmo por bicicleta e decidimos que sempre as teríamos como uma opção de meio de transporte. E foi isso o que aconteceu, pois na época não tínhamos carro. Quando viemos pra Inglaterra morar, em 2006, conseguimos comprar nossas bikes só em 2008. Desde então as usamos quase todos os dias; vamos ao mercado, ao trabalho e fazemos passeios pela cidade e região. No último ano tenho pedalado quase todos os dias por no mínimo 30 minutos.
 
Quando descobri que estava grávida um dos primeiros pensamentos que me veio a mente foi… “Será que vou ter que abandonar minha bike??” Conversei com alguns amigos e eles diziam que era perigoso e isso me deixou receosa. Mas como para chegar ao meu trabalho demorava em média 15 minutos pedalando, arrisquei ir mais devagar aos primeiros 3 meses, sempre cuidando com buracos e com o transito. Depois que passei pelos meses mais frágeis da gravidez pedalando com muito cuidado, percebi que não era impossível. Foi aí então que decidi continuar enquanto me sentisse segura e confortável. Parei de pedalar entre novembro e dezembro, quando o inverno chegou. Final de janeiro, quando estava com 23 semanas de gravidez comecei de novo e desde então ainda não parei. Hoje estou com 37 semanas de gestação e continuo pedalando!
 
O meu marido não vê problema nenhum sobre pedalar durante a gravidez, mas é claro, que o cuidado tem que ser redobrado. Ele sempre deu muito apoio pra eu continuar fazendo os mesmos exercícios e consequentemente, pedalar. Acho sim que isso influenciou a minha decisão em continuar pedalando até agora. Como temos o trajeto parecido pra ir ao trabalho, ele me acompanhou durante quase todos os dias nas últimas semanas, o que também me deu mais confiança em saber que tinha alguém comigo se algo acontecesse. Como o hospital fica a só 15 minutos de pedalada, ele até acha que poderíamos ir ao hospital de bicicleta pra ter o bebê…Brincadeira!
 
Quando perguntei à minha parteira sobre pedalar durante a gravidez, ela falou que poderia continuar pedalando até quando me sentisse confortável e segura na bicicleta. Ela disse:

Pode ir até o final!

Confesso que vibrei quando ela falou isso. Pensei: “Puxa, acho que não sou tão louca então!”. Ela mencionou também que quanto mais ativa eu fosse melhor para mim e para o bebê, e assim, para o parto. Mas é claro que teria que ter o bom senso de não fazer passeios longos e evitar ruas com muito aclive. Ouvir isso da parteira foi muito importante.
 
Quanto à opinião dos amigos e parentes, ela é diversificada. Alguns falam que eu não deveria continuar (na verdade agora é um pouco tarde pra falar isso), outros falam que admiram e que acham legal não parar de pedalar. Ultimamente percebi que algumas pessoas que acham que é loucura eu continuar pedalando normalmente são aquelas que não sabem andar de bicicleta ou têm pouca prática. Por isso acho que o “medo” delas por mim seja maior. Acho que meus pais têm algum receio, mas nunca falaram para eu parar. Meus sogros acham legal que ainda não parei de pedalar, mas sempre falam pra eu tomar mais cuidado.
 
Na semana que vem tem a parte final do relato…

Valdo, continue pedalando em paz

Há poucos dias atrás faleceu na sua barraca, desacansando das pedaladas, o Valdo da Bike. Pra quem não conhece, a gente já tinha falado um pouco dele aqui no blog.

Valdo foi um exemplo do que somos capazes de fazer com poucos recursos e muita força de vontade.

Nestes endereços você pode encontrar mais informações e homenagens:

Valdo da bike faleceu no México – OndePedalar

Em plena paz, Seu Valdo desencarna fazendo o que mais gostava – Caminhos do sertão

Em processo de desintoxicação – parte IV

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte III.


Modelo de vidaMudanças culturais positivas ocorrem de cima para baixo. É como educação ou altruísmo, precisam ser ensinados e cobrados por alguém, difícilmente vão surgir espontaneamente em nossa espécie.

 

No nosso modelo de democracia, no qual o povo, que não sebe o que está fazendo, elege políticos por interesse próprio, e estes atuam em interesse próprio, ou no máximo representando o interesse próprio de seus eleitores ou patrocinadores (qual a diferença?), inclusive garantindo que o povo continue sem saber o que está fazendo, dificilmente surgirão forças políticas benevolentes capazes ou motivadas a lutar contra o sistema, impondo transformações sociais positivas realmente relevantes. Para começar é este ciclo que precisaria mudar, e essa é apenas a parte mais difícil, não a única.

Iniciada a vontade e poder de de mudança ainda tem o vício econômico que precisaria ser resolvido, aí talvez o mundo sinta a maior síndrome de abstinência de todas. Temos toda a indústria automotiva, que invariavelmente seria bastante freiada por isso, com ela as auto peças paralelas, a indústria de combustíveis, postos de distribuição, oficinas mecânicas e auto-centers.

Faça um teste na avenida comercial mais próxima a sua casa: quantas lojas de carro tem? quantos postos de gasolina? quantos auto-centers? quantas lojas de som ou “tunning” automotivos? Compare com a quantidade de verdureiros, teatros, livrarias (pode somar esses últimos se quiser)?

No meu bairro é mais fácil instalar insufilme ou abastecer o tanque do que comprar um quilo de abobrinhas.

Mas isso também só depende de vontade pública. Todo este comércio surgiu para abastecer o mercado. Se o mercado mudasse, a oferta mudaria com ele, e poderíamos ter em todos o bairros, pequenos distribuidores de alimentos orgânicos, frescos e de qualidade, mais livrarias, teatros, e onde temos hoje nosso singular Mercado Municipal ou nosso único Ceasa, poderíamos ter um singular posto de gasolina e um auto-center. Exagero?

A “lista online” aponta, em Curitiba, 442 endereços para “carros usados”, 248 relacionados à palavra “gasolina” e 173 para “Auto-Center”, contra apenas 33 para “Legumes”, 81 para “livraria” e 13 para “teatro”. “Bicicleta” retorna 35 endereços. Acredito que a experiência em que estou metido (tentando largar o vício) pode servir de exemplo.

Antes de começar a andar de bicicleta, tive que perceber que minha conexão psicológica e física com o carro era um problema.

O investimento, uma boa Caloi 10, veio depois e só a partir daí começou a haver mudança. Da mesma forma, antes de construir quilômetros de ciclofaixas ou comprar centenas de ônibus, é preciso conscientizar as pessoas de que o excessivo uso do automóvel é um problema, se não as ciclofaixas vão acabar vazias e abandonadas, ou virarão (como acontece) pista de cooper, estacionamento, ou “moto-faixas”, e os ônibus ficarão muito caros para os poucos passageiro que não tem dinheiro para comprar um carro.

Hoje vemos em comerciais imagens de automóveis reluzentes viajando em alta velocidade por avenidas livres, belas estradas e paisagens estonteantes, e enquanto os consumidores sonham com o automóvel reluzente, não percebem que o que eles realmente precisam são as avenidas vazias, belas estradas e paisagens estonteantes!

Os valores estão invertidos, e antes de qualquer coisa precisam ser realinhados.

Em processo de desintoxicação – parte III

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte II.


Principal causa de morte no mundoEstatísticas nem sempre são confiáveis, dependem muito de quem paga por elas, mas são um bom indicador. Segundo elas, este problema já mata mais que o cigarro, direta, ou, digamos, “passivamente”. Foram mais de 254 mil pessoas mortas em acidentes nos último 8 anos, uma média de quase 32 mil por ano. Algumas pesquisas indicam que cerca de 11 mil pessoas morrem por ano em decorrência da poluição causada pelos automóveis, isso só nas 6 principais capitais do país, onde o problema já passou de crônico.

 

Somando estas duas frentes, a ativa e a passiva, temos 65 pessoas morrendo por hora, de acordo com estudos, seis vezes mais que o tabagismo, que mata cerca de 10 pessoas por hora no Brasil, isso porque não estou contando os ainda controversos e incompreendidos efeitos colaterais da depredação do planeta para a extração de matéria-prima e energia para a manufatura e descarte de toda a tropa mundial.

Não quero começar uma discussão sobre qual droga é mais pesada pois não é esse o ponto, quero apenas encontrar comparativos para o problema e demonstrar não somente que o automóvel é realmente um vício, mas que nas proporções atuais de uso e consumo, é um vício que mata. E mata muita gente.

Quando resolvi que lentamente tentaria trocar o carro pela bicicleta, percebi que além de todos os sintomas comentados anteriormente – que meu corpo dependia cronicamente do automóvel, que meu modo de vida dependia do automóvel – percebi também que socialmente, de uma forma muito mais ampla, esta droga vicia de forma sistêmica.

Possuir um carro passou a ser a ambição das pessoas, desde criança.

Não usa-lo uma vez que o possui, passou a ser considerado insanidade. “Por quê você vem de bicicleta?”, me perguntam no trabalho. Costumo responder que é “porque preciso trabalhar para viver”. Existe uma pressão social para o uso do carro.

Mundo dos carrosA cidade, não somente seus cidadãos, está viciada em carros. Calcula-se que 70% do espaço urbano público está destinado aos automóveis, veículos estes que transportam apenas 17% da população. Quanto mais carros mais trânsito, quanto mais trânsito mais avenidas, quanto mais avenidas, mais carros, e assim sustentamos um dos ciclos viciosos mais rentáveis da história (depois das guerras), enquanto a grande maioria dos cidadãos são cada vez mais espremidos no pouco que lhes sobra, em calçadas e ciclovias estreitas e esburacadas, em ônibus e terminais super lotados.

O sistema econômico, não apenas a cidade, está viciado em carros. Frente a crises, países lançam incentivos acima de 2 mil dólares por cidadão (abastado) para fomentar a compra de mais carros, girar a economia e gerar empregos, pior, com a desculpa de que assim estaríamos ajudando o meio ambiente.

Outros cortam impostos, lançam financiamentos, para garantir que o sistema de enriquecimento que sustenta os bolsos mais abastados do país não entre em falência. Esta indústria, se somada à da dos combustíveis que alimenta a tropa, já parece ser uma das principais de nosso país. O governo, não só o sistema econômico, está viciado em carros, e é incapaz de vez uma saída diferente.

Tem como sairmos dessa? Neste país, minha esperança é pouca mas ainda não acabou (se não não estaria rabujando aqui). Mas por que tanto negativismo? Porque essa mudança exigiria algumas bases que não temos hoje, e talvez sejam necessárias algumas gerações de população e consequentemente de políticos para passarmos a tê-las. Estamos falando de um pouco mais do que investimento em transporte público e ciclofaixas, mas também de consciência coletiva, mudança de valores e vontade pública e política.

Continua na próxima semana…

Em processo de desintoxicação – parte II

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte I.


Hoje, apesar de melhor, ainda sou bastante dependente. Minha contagem mostra progresso: primeira semana fiquei dois dias limpo, na segunda o tempo frio e chuvoso de Curitiba me desanimou e tive uma pequena recaída, só consegui a façanha uma vez. Terceira semana consegui três dias, e na quarta, o mesmo número mas com dois dias seguidos, sinal claro que a dependência física pode ser vencida com um pouco de persistência.

 

Hoje estou estacionado nos três dias limpos por semana, mas convicto de que em pouco tempo conseguirei romper a barreira impostas pelas sequelas da dependência prologada, pulando para os cinco dias da semana, faça chuva ou faça sol.

Acho que posso dizer que sou dependente a cerca de 12 anos, começou a ficar sério alguns meses depois de minha primeira carteira, quando comprei meu próprio carro e pela primeira vez me senti realmente livre.

Livre para ir e vir, levar a namorada para sair, ir a bares, voltar altas horas totalmente embriagado, de felicidade, realização e álcool. Indo um pouco mais fundo, lembrando de minha infância e presenciando agora o desenvolvimento de meu próprio filho, começo a realizar que as raízes de minha dependência estão muito além de minha primeira carteira.

viciado do começo ao fimAs brincadeiras de criança, filmes de televisão, comerciais, as próprias atitudes de meus parentes mais próximos e de toda a sociedade a minha volta, tudo exerceu influência nas minhas decisões, e tudo fez com que o problema não fosse percebido facilmente por mim.

Conheço muita gente que sofre do mesmo vício mas não o percebe como tal, pior, negam, e mesmo depois deste meu depoimento, certamente continuarão negando. Como eu, estas pessoas abusam da substância, do planeta, e sempre que o fazem se sentem melhores, mais capazes, algumas se sentem até indestrutíveis.Colocam seu corpo em situações de risco, forças físicas para as quais nós seres humanos não fomos adaptados a suportar.

A sensação de poder, superioridade, proteção e realização que o uso da droga proporciona é dificilmente igualável.

Entorpecidos e dependentes, vejo parentes e amigos se comportarem de forma selvagem, totalmente diferente da postura amigável das situações corriqueiras. Xingamentos, individualismo, egoísmo, classicismo, falta de respeito com o próximo, não são comportamentos incomuns nos usuários de hidrocarbonetos.

Continua na próxima semana…

Em processo de desintoxicação – parte I

O texto abaixo foi publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand. Ele retoma uma discussão publicada no início deste blog no artigo Pedindo divórcio.


Faz mais ou menos um mês e meio que decidi que já era hora de levantar a cabeça para a realidade e começar uma luta interna e externa para largar um vício que carrego fazem muitos anos.

O primeiro passo para largar um vício é reconhecê-lo, não necessariamente ainda como um vício, mas pelo menos como um problema. Sempre encarei este problema não como tal e mais como uma opção, preferência, hobby, no máximo um hábito. Hoje, depois de mais de trinta dias lutando contra ele, com algumas batalhas ganhas entretanto longe ainda de uma vitória absoluta, já tenho completa convicção que é de vício que se trata.

Uma vez reconhecido o problema, ainda classificado como um hábito, e após uma longa análise sobre quais aspectos de minha vida teria eu que mudar se quisesse alguma chance de sucesso, percebi que eu deveria iniciar a luta com um investimento significante.

A importância de se investir em algo antes de dar os primeiros passos é a força psicológica que este ato tem, dando-te uma maior sensação de perda quando uma pequena batalha é perdida.

Esta sensação é fundamental para que se tenha sempre a motivação necessária para que tropeções momentâneo sejam imediatamente seguidos de reerguidas, pois tropeços sempre existirão, o importante é não se largar estatelado no chão, mas imediatamente levantar-se e apressar o passo para tentar recuperar a vantagem. Muitas vezes é esta a atitude que separa um fracasso de um sucesso.

Na primeira semana de luta senti o primeiro sintoma da abstinência. Vencida parte da barreira psicológica, enraizada a vontade de largar o hábito, senti já no primeiro dia sintomas fortes de dependência física. Dores musculares, sudorese e muita, muita sede, sem contar com uma inexplicável sensação de insegurança. Tão fortes foram estes sintomas que tive a primeira recaída, e depois de um dia limpo, voltei a sujar minha consciência uma vez mais. No terceiro dia minhas convicções e a lembrança do investimento feito me colocaram novamente nos eixos e consegui passar mais um dia limpo.

Mas novamente os efeitos físicos foram sentidos, e desta vez mais fortes que da primeira: muito suor, cheguei a reconhecer uma mudança em meu cheiro ao longo do dia, ataques de sede, dores no corpo e até cãimbras. As cãimbras realmente me assustaram, mas serviram para eu reconhecer ainda mais o problema e realizar a profundidade física, ou fisiológica, da dependência.

Acho que neste dia comecei a reconhecer que era viciado, física e psicologicamente.

Continua na próxima semana…

Ciclista da vez – Luis Carlos Bulek

Um ano de bike !
No mês passado, fez um ano que eu voltei a pedalar, tive um pequeno intervalo entre as idades de 10 a 48 anos, lembro ainda da minha primeira e única bicicleta de infância, uma Odomo, muita ralação de joelhos e coxas naquela bicicletinha, meu pai comprou porque era a mais barata, não podia comprar uma Caloi ou Monark.

O retorno
Deixando a poeira do passado baixar resolvi (re)começar a pedalar, agora com 48 anos, foi uma boa opção já que nunca me dei bem em esportes, e última vez que joguei futebol, quase me arrancaram as pernas, nunca joguei nada mesmo, e resolvi que não ia morrer numa arena pra diversão dos Romanos. Tentei também academia, achei aquilo um saco além de pagar pra ficar vendo braços e coxas peludas de mulecada bombada exibindo os seus dotes físicos, que neura aquilo meu. Peguei uma gripe e desisti. Ainda bem. Foram três longas aulas.

Decidi então, andar de bike, mas não queria ainda gastar dinheiro com isso, então encontrei uma velha bike empoeirada, na garagem do prédio do meu pai, que comprou pro meu filho, que logo desistiu da maldita, a princípio fiquei brabo com ele por desistir de andar de bike, mas logo entendi, foram os piores 4 km da minha vida, entre a casa de meus pais e a minha, xinguei até a última geração do fabricante daquela maldita bicicleta, minha bunda ficou com febre, nunca vi bunda ficar com febre, mas a minha ficou, de tão ruim que era aquele selim, não sei como podem vender uma porcaria daquelas.

Coisa séria
Mas tudo bem, não desisti, troquei o selim e continuei pedalando, andei um mês e pouco com aquela porcaria, mesmo com a corrente volta e meia escapando. Foi quando resolvi chutar de vez pra escanteio a bichinha.

Luis Carlos Bulek dando uma voltinha

Luis Carlos Bulek dando uma voltinha

Fiz amizade com o cara que tem oficina de bike perto de casa e resolvi montar uma pra mim, foi a melhor coisa, não gastei muito e fiz uma máquina boa. Quando pedi pro sujeito montar a bicicleta, ele me olhou com aquela cara de quem diz – mais uma que vai ficar empoeirando na garagem ?! E quase dois meses depois, eu já estava contando pro cara que tinha ido a Colombo (Grutas do Bacaetava), o que deu aproximadamente 64 Km rodados, não é muito pra hoje, um ano depois, mas pra época foi um suador danado, uma dor nas pernas legal, mas consegui, foi uma vitória pessoal, e a mudança de bicicleta foi algo como trocar um Jeep por uma Lamborgini.

Então resolvi que não ia largar mais a bike, que ia ser o meu meio de transporte, adeus buzão, adeus esperas intermináveis e a cidade foi ficando pequena pra mim. Interessante quando falo com as pessoas, e me dizem que moram longe e como não tenho carro, então vou demorar mais de uma hora de ônibus pra chegar lá, e quando apareço lá em 30 minutos, elas se surpreendem, mobilidade é isso ai, como um motor 4.9 e bebendo apenas 2,5 litros a cada 120 km.

Alargando horizontes
Disseram-me esses dias que fiquei fanático por bicicleta, que mudei minhas opiniões de forma muito radical em relação ao trânsito, a cidade e as pessoas. Na verdade não me considero radical, mas acho que acabei vendo essas questões de outro ângulo. Saí da caixa, justo eu que era um motorista que reclamava do ciclista atrapalhando a minha frente. Que imbecil totalflex ! Hoje entro num carro, fico estressado, quase tive um troço dirigindo em São Paulo, mais nem vou entrar fundo nesse assunto, porque dá uma tese de mestrado legal.

O fato é que comecei a pedalar pra sair de uma vida sedentária e estressante, o único esporte que praticava era futebol no micro, a vida estava difícil, andava pior que meu velho pai de 72 anos. Agora passado um ano, já fui a algumas cidades mais próximas a Curitiba, ao litoral algumas vezes, devo ter feito aproximadamente uns 5500 km, não sei ao certo porque a porcaria do ciclo-computador quebrou quando estava em 4800 km. Não que isso seja um feito heróico que deva ganhar uma medalha ou uma placa comemorativa, mas pra quem pedala sabe do estou falando.

Agora tenho outras pretensões, pendurar uns alforjes em minha bike, e fazer viagens mais longas, por que hoje já considero distâncias de aproximadamente 100 km como um passeio. Não tive e nem tenho pretensão de virar atleta, de virar véio bombado, mas sei que sou um cara mais feliz hoje, nestas longas pedaladas pelas estradas, fico numa relação mais próxima entre mim e o meio ambiente, vejo e ouço as coisas com mais atenção.

Serviço de entrega com bicicletas

No mês passado conhecemos o Marcelo Machado, um bikeboy que trabalha no centro de Curitiba. Ele foi apresentado na nossa coluna no Jornalismo FM. Finalmente tivemos um tempinho para conversar com mais calma com o Marcelo. Veja abaixo a matéria completa.

Patricio e Marcelo

Patricio e Marcelo

Grupo Transporte Humano: Há quanto tempo você trabalha como bikeboy?
Marcelo Machado: Estou trabalhando desde julho do ano passado.

GTH: Como é a sua rotina de trabalho?
MM: Como moro em Pinhais e são 22km pra ir e voltar, preciso acordar bem cedo para chegar no centro de Curitiba por volta das 09:00. Fico por lá até às 17:00 fazendo entregas e volto para casa. Trabalho de segunda a sexta.

GTH: Que tipo de entregas você faz? Como são os clientes?
MM: Tenho uma mochila e um bagageiro que dá para levar encomendas pequenas, como documentos em geral, pacotes pequenos e remédios. Faço também pagamento em banco para alguns clientes. Hoje em dia já tenho alguns clientes fixos que pagam por mês. Tem farmácia, consulado, agência de viagem e coisas assim. Mas continuo fazendo trabalhos avulsos também.

GTH: E como é o seu relacionamento com os clientes?
MM: É uma relação de confiança. É algo mais do que simplesmente entregar ou buscar os pedidos. Eles sabem que estou disponível e que podem contar comigo. A aparência também faz  diferença. No começo, eu usava bermuda e camiseta. Depois bolei um uniforme simples com calça e camisa de gola pólo. Assim ficou melhor para entrar em qualquer escritório sem constrangimento.

GTH: E o que eles acham de contratar um bikeboy você?
MM: Para eles não faz muito diferença qual o meio de transporte que uso. Sou contratado porque consigo entregar com rapidez e tenho um bom preço. Afinal de contas, meu gasto com manutenção é baixo. Alguns comerciantes até comentam que é uma iniciativa legal porque não polui e essa coisa toda. Mas isso não é determinante.

GTH: E como você faz para ir ao banheiro? Onde você come?
MM: Existem vários banheiros públicos disponíveis no centro. Além de shoppings e restaurantes que dá pra usar. Mas eu nunca peço pra usar o banheiro dos meus clientes. Por mais que seja uma relação amigável, é preciso reconhecer os limites. Faço alguns lanches pelo centro e costumo almoçar no SESC.

GTH: E qual a sua maior dificuldade?
MM: Tem dia que o vento contra atrapalha bastante e fico bem mais cansado. Mas o meu pesadelo mesmo é porta de carro.

GTH: Já deixou de fazer alguma entrega?
MM: NUNCA. Todos os serviços que recebi foram executados.

GTH: E assalto, roubo?
MM: Já até vi assalto na rua, mas comigo mesmo nunca aconteceu nada. Minha bicicleta é simples e não chama atenção. Ela fica parada na rua e uso duas correntes sempre.

GTH: E quando chove?
MM: Tem que dar um jeito. Espero um pouco a chuva passar ou coloco em sacos plásticos e saio na chuva mesmo.

GTH: Você lembra de algum episódio curioso?
MM: Hmmm… Lembro de dois. Uma vez me ligaram para pedir para levar uma mesa de 6 lugares da Praça Osório até a Praça Zacarias e eu tive que explicar que não poderia fazer esse tipo de serviço. Outra vez pediram para eu entregar um documento em Almirante Tamandaré.

GTH: E você não faz entregas distantes ?
MM: A bicicleta não foi feita para percorrer distâncias tão grandes. Além disso eu perderia muito tempo e o valor teria que ser bem mais alto do que as entregas comuns. Por isso eu faço entregas apenas pela região central num raio menor que 10km. Além disso, por aqui que tem muito congestionamento, assim eu ajudo a desafogar o trânsito um pouco.

GTH: E quanto custa uma entrega normal?
MM: R$5,00

GTH: Falando nisso, qual a sua renda mensal? Se não for uma pergunta muito indiscreta.
MM: Sem problemas. Meu lucro mensal gira em torno de R$1.500,00

GTH: O que você fazia antes de virar bikeboy?
MM: Trabalhei mais de 20 de anos na área de vendas de uma empresa até que fui demitido.

GTH: E como seus amigos e sua família encararam a idéia?
MM: A grande maioria achava que não ia dar em nada. Eu até evitava contar pros meus amigos para não ter que ouvir a tiração de sarro.

GTH: Fale um pouco sobre você? Quantos anos você tem? Sempre morou em Curitiba?
MM: Tenho 38 anos. Sou casado e tenho duas filhas. Minha esposa trabalha no INSS.Nasci em Torres no Rio Grande do Sul mas mudei para Curitiba quando tinha 5 anos. Morei um tempo em São Paulo também.

GTH: Você conhece a legislação para bicicletas?
MM: Sim conheço e tento respeitar. Mas a bicicleta é bem diferente do carro e deveria ser tratada diferente também. O forte deveria sempre proteger o mais fraco.

GTH: O que você acha da infraestrutura cicloviária de Curitiba?
MM: Acho péssima. Quando você está na rua de bicicleta ninguém enxerga você. Apesar de ter umas ciclovias para embelezar, a política é totalmente pró-carro. Por exemplo, esse estacionamento que tiraram na Visconde de Guarapuava. Fizeram isso para aumentar o fluxo de carros em vez de espaço para ciclistas ou pedestres.

GTH:Só uma última pergunta. Como as pessoas podem contratá-lo?
MM: É só me ligar. Meu telefone é 8432-0689.

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