Na quarta-feira, dia 8 de julho, o plenário do Senado aprovou um projeto que regulamenta a profissão dos mototaxistas. Por isso, o jornal Folha de São Paulo publicou ontem uma notícia sobre o assunto e uma entrevista com o engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcellos, que critica fortemente a iniciativa. Confira!
Importamos o que existe de pior, diz técnico em trânsito
Engenheiro e sociólogo diz que modelo brasileiro de políticas para motocicletas copia o que existe na África e na Ásia pobre
Para Eduardo Vasconcellos, regulamentação do mototáxi sinaliza domínio do discurso de que moto liberta os mais pobres
ALENCAR IZIDORO
DA REPORTAGEM LOCAL
Há cinco anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) fez um alerta mundial para os riscos do avanço das motos nos países em desenvolvimento. O engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, 56, que participou como representante brasileiro no relatório da entidade, avalia que as recomendações tiveram um efeito “zero” – e que um dos exemplos da situação no Brasil é a regulamentação nacional da atividade do mototáxi.
“O discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre, essa demagogia é mais forte”, diz. “Importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável”, afirma ele que tem pós-doutorado na Universidade de Cornell (EUA) e é assessor da ANTP (associação de transportes públicos):
FOLHA – Quais serão os impactos da regulamentação do mototáxi?
EDUARDO ALCÂNTARA VASCONCELLOS – É inegável que a moto é um veículo muito perigoso. De cada dez acidentes com moto, sete têm vítimas. De cada dez com carro, um tem vítima. Se acrescentar a isso a possibilidade de alguém na garupa, aumenta o problema porque a condução de uma motocicleta é influenciada pelo peso e pelo comportamento do passageiro. Dado o apoio amplo e irrestrito do governo federal à indústria da motocicleta, haverá um incentivo muito forte para a proliferação do mototáxi.
FOLHA – Que apoio é esse?
VASCONCELLOS – O governo facilitou a ida da indústria para a zona franca de Manaus. Tem um subsídio muito alto. Agora, com a crise, o governo também reduziu o IPI da motocicleta. Além disso, a moto que entrou no Brasil é altamente poluente. O governo não exigiu que a indústria adaptasse os motores. É uma licença para poluir com um custo social enorme. Nós importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável.
FOLHA – Por que populista?
VASCONCELLOS – Porque a moto disfarça, esconde os impactos verdadeiros e trabalha habilmente com a ideia de progresso. O discurso é por ser geradora de empregos. O mais irônico e trágico é que ela fala que é a libertação dos mais pobres.
FOLHA – A regulamentação do mototáxi, ao fixar regras claras, não é melhor do que deixar como está?
VASCONCELLOS – É um falso argumento. As pessoas de mototáxi, mesmo com a regulamentação, estarão expostas a riscos muito altos. As características inerentes da motocicleta são um problema. Independe do capacete, por exemplo.
FOLHA – O mototáxi chegará com força às grandes metrópoles?
VASCONCELLOS – Nas grandes metrópoles vai haver uma resistência maior, porque o transporte público é mais farto. Mas nas áreas periféricas delas vai surgir com certeza. Existem deficiências estruturais na oferta do sistema de ônibus, na qualidade, a tarifa é muito alta em vários lugares. Tudo isso é um incentivo pra pegar um mototáxi.
FOLHA – O que mudou desde 2004, quando a OMS apontou a preocupação mundial com as motos?
VASCONCELLOS – Nada. Não teve nenhuma repercussão. Zero. O discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre, essa demagogia é mais forte.
Esses processos de entrada de tecnologia sem nenhum cuidado se assemelham a processos de seleção natural. Infelizmente. Os mais fracos, os mais ignorantes dos riscos, vão pagar um preço altíssimo na ilusão de que é uma coisa boa.
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Estamos vivendo em um mundo comandado por sofistas e temos que arrebatar-lhes suas atitudes. Nao podemos aceitar e nao contestar.
rg
Concordo que moto é um meio de transporte perigoso, porém, com a regulamentação do execício das atividades de mototaxista, os Município terão que se adequar a Lei para liberar alvará de permissão para exercer a atividade mototaxista, então, é só fiscalizar com afinco e responsabilidade esses “novos profissionais” que , com certeza gerará milhares de emprego oficializado, já que milhares de “mototaxistas” trabalham na clandestinidade, agora poderão recolher seu INSS e trabalhar dentro da legalidade.