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Ônibus virou um “mal necessário”

Demora, superlotação, desconforto e insegurança são as principais queixas dos passageiros, que só usam o transporte coletivo por absoluta falta de opção

Com 1.035.819 veículos circulando pelas ruas de Curitiba e 500 novos carros sendo licenciados diariamente na cidade, segundo dados do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR), o trânsito de Curitiba caminha para o caos. A saída, apontam especialistas e poder público, é o incentivo à utilização do transporte coletivo. De acordo com uma pesquisa da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU), para transportar 70 pessoas são necessários 50 automóveis ou apenas um ônibus. Além de os automóveis usarem oito vezes mais espaço do que os ônibus para transportar o mesmo número de pessoas, poluem infinitamente mais. Então, por que, na grande maioria das vezes, quem tem carro não desiste do trânsito caótico para pegar um ônibus?
A resposta é simples: o transporte coletivo de Curitiba não tem poder de atração. Principalmente para quem tem automóvel, que não abre mão do conforto para esperar na fila e pegar um ônibus lotado nos horários de pico. Na semana passada, a reportagem da Gazeta do Povo percorreu linhas consideradas problemáticas pelos usuários, em horários de pico – 6h30 e 18h30. E constatou que, de modo geral, o usuário do transporte coletivo pega ônibus por absoluta falta de opção. As principais reclamações são demora (na espera e durante o trajeto), ônibus muito cheios, falta de conforto, falta de educação dos usuários e sensação de insegurança.

“O transporte coletivo é precário e a passagem é cara”, afirma a estudante Maria Patrícia Lino da Silva, de 27 anos, que utiliza a linha Rui Barbosa–Pinheirinho pelo menos três vezes por semana. Ela garante: se tivesse carro, não andaria de ônibus. “Não temos segurança, não sabemos o que pode acontecer dentro do ônibus”, diz. “No terminal, chego a esperar até meia hora por um alimentador. E não temos conforto. Ligam uma música para tentar fazer com que a gente durma, mas acaba irritando. Falam para as pessoas andarem de ônibus, mas o prefeito não anda de ônibus.”

O sofrimento começa por volta das 7 horas, quando biarticulados encostam na plataforma do Terminal do Pinheirinho, um após o outro, sem conseguir atender a demanda. Quando o ônibus abre as portas, o usuário é levado para o interior pela multidão. Antes de partir, não raro, é necessário que alguém empurre a porta por fora para fechá-la. Dentro do ônibus, os problemas continuam: as pessoas têm de enfrentar o empurra-empurra, os batedores de carteira, a má educação de outros passageiros e até o modo de dirigir de alguns motoristas, que aceleram e freiam bruscamente e, por vezes, não conseguem sequer alinhar as rampas do ônibus com a estação-tubo.

“É uma demora, um aperto, um empurra-empurra”, reclama a dona de casa Doraci Bagio, de 40 anos. “É uma falta de respeito. Outro dia, um homem empurrou uma mulher com um bebê de colo e ela caiu no chão. Por sorte o bebê não se machucou, porque ela conseguiu proteger o filho na hora de cair”, conta a esteticista Quitéria Conceição, de 39 anos.

Só de carro
As facilidades de adquirir um carro têm afastado definitivamente algumas pessoas do transporte coletivo. A designer Rafaelle Alves Moraes, de 26 anos, sempre andou do ônibus. No ano passado, comprou um carro. E não quer mais saber de transporte coletivo. “Graças a Deus que consegui comprar o carro”, comenta. Além do incômodo de andar até o ponto, esperar, enfrentar superlotação e ter de andar do ponto até o trabalho, Rafaelle diz que o fator segurança pesou em sua decisão. Ela diz ter perdido as contas de quantas vezes foi roubada dentro do ônibus ou no caminho até o ponto. Só no ano passado, antes de comprar o carro, foram duas vezes.

Jaqueline Kulik, de 31 anos, gerente de uma loja de materiais de construção, faz coro. “Andar de ônibus é horrível”, define. Segundo ela, o trajeto de carro até o trabalho leva 40 minutos. Se fizesse o percurso de ônibus, levaria quase duas horas. “Moro longe, mas, mesmo se morasse perto, viria de carro. O conforto em primeiro lugar”, afirma Jaqueline. O economista Luis Rodrigues, de 30 anos, é outro que não dispensa o carro. “É o fator clima, o fato tempo”, justifica.

O segurança Leocádio José Bora, de 35 anos, faz o trajeto de casa ao trabalho de moto e leva apenas dez minutos. Se utilizasse o transporte coletivo, teria de pegar dois ônibus. E o tempo de viagem subiria para 40 minutos. “Isso para percorrer seis quilômetros”, comenta Bora, que mora a uma quadra de uma estação-tudo e trabalha perto de outra. O também segurança Jusselito Machado, de 32 anos, concorda. Ele mora a uma quadra do Terminal do Boqueirão, mas a proximidade não é o suficiente para fazer com que ande de ônibus. “De ônibus, eu levaria uma hora e meia. De carro, são 20 minutos”, compara. “Quando pude, mandei ver e comprei um carro.”

Viagem
A reportagem da Gazeta do Povo acompanhou uma das “viagens” da empregada doméstica Adriana Florêncio Delfin, de 21 anos, na última semana. Ela leva quase duas horas para chegar ao trabalho. Para fazer o trajeto da Vila Pompéia, no Tatuquara (Zona Sul), até o Capão da Imbuia (Zona Leste) são necessários quatro ônibus. Se o percurso fosse feito de carro, bastariam 32 minutos para percorrer 23 quilômetros. Por isso, ela não hesita quando é questionada se usaria um carro em vez do ônibus, se pudesse.
Adriana acorda às 5h30, deixa os filhos com uma vizinha e inicia a “via-crúcis”. Pega o primeiro ônibus às 6h40, chega ao Terminal do Pinheirinho já lotado, às 7h06. Antes de conseguir embarcar no biarticulado Pinheirinho–Rui Barbosa tem de deixar vários ônibus partir. Consegue embarcar no quarto ônibus que encosta à plataforma, depois de ser levada pela multidão. “É muito empurra-empurra”, reclama.
A empregada doméstica desembarca dez minutos depois no Terminal Capão Raso e tenta embarcar no “Inter 2”. Só depois de três tentativas, consegue. Ônibus lotado novamente. Ela só consegue sentar quando o ônibus pára no Terminal Hauer. Adriana segue viagem até o Terminal Capão da Imbuia. Pega outro biarticulado, o Centenário–Campo Comprido. Duas estações depois, finalmente, desembarca. “Já chego cansada para trabalhar”, diz. Se pudesse, Adriana diz que compraria um carro. “O carro não pára, só em sinal mesmo. Não tem de parar em terminal, nos tubos”, explica. “Quem sabe, no futuro?”

Cronologia
Acompanhe a via-crúcis da doméstica Adriana Florêncio Delfin, que pega quatro ônibus para ir ao trabalho:
5h30 – Adriana acorda.
6h15 – sai de casa para levar os filhos até uma vizinha que cuida deles.
6h40 – pega o ônibus Pompéia.
7h06 – chega ao Terminal do Pinheirinho. Uma multidão já aguarda o biarticulado Pinheirinho-Rui Barbosa na plataforma.
7h15 – até conseguir entrar no biarticulado, Adriana tem de deixar três veículos partirem antes. Mesmo assim, embarca em um ônibus lotado.
7h25 – Adriana chega ao Terminal Capão Raso.
7h40 – Depois de deixar passar três “Inter 2”, Adriana consegue embarcar. Este é o ônibus em que ela fica mais tempo e também o mais lotado.
8 horas – Depois que o “Inter 2” deixa o Terminal do Hauer, Adriana consegue sentar.
8h15 – Adriana chega ao Terminal Capão da Imbuia.
8h20- A empregada doméstica pega o biarticulado Centenário-Campo Comprido.
8h25 – Adriana, finalmente, desembarca, duas estações-tubo depois do Terminal Capão da Imbuia.

Publicado por:Gazeta do Povo >> Themys Cabral e José Marcos Lopes

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